A Abelha e a Caixa
Este pequeno pedaço de tempo é uma das partes de uma longa história que ocorreu em um lugar incerto, de um modo sem precedentes, longe do início da imaginação e muito perto do fim de nossos sonhos, é um relato que não se restringe as palavras, mas que encorpa e embaça o conceito do sentimento e das diretrizes que o compõem
Existia em uma certa instância de tempo uma abelha chamada incerteza, sua mania era a dúvida e sua essência a confusão, por onde passava vários lábios beijava, por onde andava em pernas tocava, era uma vida pródiga e em toda a sua extensão viu inúmeras coisas e diversos fatos incertos
Sua trajetória não era uma reta, não era uma curva, se deslocava ao lento conforme soprava o vento, e em muitos momentos desatenta sucumbia ao lamento de não poder viver como bem pretendia, mas conforme soprava e mandava o tempo
Suas armas eram a criatividade e a insistência, minava suas adversidades com a pouca energia que possuía, mas insistentemente, até chegar ao ponto que via as muralhas que a cercavam caírem e seus desafios sucumbirem a sua vontade
Talvez por querer demais e saber que não podia desistir com um primeiro estorvo, talvez por não poder sonhar com o milagre da perfeição, talvez por apenas achar que o talvez fosse a forma mais exata de pensar, sua vida era trilhada dia após dia, sem previsão nem destino certo
Mas um dia uma caixa a encantou, ela não era igual às mil outras que já havia conhecido, tinha a mesma forma, mas os detalhes a impressionavam, não havia uma posição certa para o pouso, então a pequena abelha circundou a caixa por vários instantes, em cada tentativa de pouso um novo fracasso, até que enfim encontrou um lugar seguro
Parecia um lugar sagrado, mas a abelha não queria apenas um ponto para descansar queria navegar e voar por dentro daquela caixa, queria conhecer seus encantos e seu mundo interno, e aquilo soou de um modo tão sublime que a pequena abelha se sentiu em paz
Os seus vôos de lugar em lugar, alguns por opção própria, outros impostos pela força da natureza, já não importavam mais, queria conhecer o interior daquela caixa, desfrutar seus segredos, sua magia, saborear o mistério que agora a acompanhava
Mas a caixa permanecia imóvel, parecia que a presença da abelha não era importante e se fosse não estava sendo dada a ela à devida atenção, depois de tanto que ela voou, depois de tudo que ela havia experimentado, quando por fim ela se cansou, e pensou que havia encontrado sua moradia, a caixa simplesmente não abria
A abelha sabia de sua longa trajetória, lembrava que seus passos por muitas vezes haviam sido incrédulos, que seu vôo por muito tempo havia sido incerto, que seus deveres não foram cumpridos, recordava que havia machucado algumas pessoas e que isso contava muito na hora daquela caixa se abrir, podia ser um castigo justo e a abelha agora começava a fraquejar, querendo duvidar de seu destino, querendo acreditar que não era assim que ela iria terminar
Seus sonhos estavam se quebrando aos poucos, suas asas estavam se cansando, seu vigor estava se ofuscando e sua confiança já não era mais a mesma, ela tentava mostrar sua dor para a caixa, mas a situação permanecia inalterada, não sabia mais como agir, o que fazer, nem o que pensar, só sabia que seu corpo estava cansado e que precisava de um novo lugar para revigorar suas energias
Por vezes fugia e se escondia entre os arbustos ou entre as nuvens, deixava que o tempo passasse para ver se a caixa se abria, mas ela não se abria e ao longe a abelha via o quanto é triste ficar sozinha, se perguntava se a caixa não sentia a solidão que também a assombrava
E um dia sem ninguém esperar, a caixa se abriu, a abelha não acreditou naquele fato, e do local de onde estava iniciou seu vôo ao encontro da caixa, cada metro, cada centímetro, cada segundo que a distanciava, parecia a história de toda sua vida
E quando enfim chegou, percebeu que a caixa não estava vazia, viu em seu interior outra abelha chamada mágoa, e então ela entendeu que todos seus sonhos haviam se perdido, que sua vida havia passado diante dos seus olhos, que sua alegria havia sido desfeita, que em sua vida já não havia sentido, e com fechar de seus olhos, via o fim do mundo que estava ao seu redor, e quando seu corpo sucumbiu, ela percebeu que nunca poderia viver sem a caixa que a desprezou.